quarta-feira, junho 13

Como fazer basicamente tudo

Muita gente convive com a ansiedade, mas o meu passatempo é ficar à espreita no estilo "olha só como vai ser agora que vai começar a minha". E acontece em situações não convencionais, por exemplo, ao sair com os amigos. É sempre uma provação o período que abrange desde quando eu marco a saída até a saída em si. Fico naquela expectativa do que vou falar (pra minha única amiga que conheço há 7 anos), como reagir; e fico colecionando assuntos, lembrando de fofocas, julgando uns atos passados, só para poder comentar tudo naquelas futuras horas em que não estarei mais sozinha. Porque afinal eu estou ali para entreter, não dá para ficar de boca fechada, fazer bico, querer morrer - coisas naturais que imponho a mim mesma apenas para passar o tempo ou para trazer mais um pouquinho de conflito à vida doce que levo.

E essas coisas não deveriam ser coisas naturais? Eu refaço coisas todos os dias, e sempre naquela dúvida se dessa vez eu vou conseguir. Não há self confidence suficiente nesse mundinho que eu chamo de mim mesma. Eu fico esperando o dia em que algo vai me revelar que todos sempre souberam que eu nunca consegui fazer, no fim das contas. Tem essa passagem de Kafka que eu ouso lembrar todo mês.

Eu pensava: nunca vou passar do primeiro ano primário, mas consegui e até recebi um prêmio; certamente porém não vou ser aprovado na admissão ao ginásio, mas fui bem-sucedido; agora entretanto vou sem dúvida fracassar no primeiro ano ginasial; não, não fracassei, e assim continuei sempre em frente. Mas o efeito não foi um incremento de confiança, pelo contrário, sempre estive convencido e tinha a prova formal disso na sua cara de rejeição de que quanto mais êxito tivesse, pior deveria ser o resultado final. Muitas vezes eu via mentalmente a medonha assembleia de professores (o ginásio é apenas o exemplo mais homogêneo, mas por toda parte ao meu redor era parecido), que iria se reunir quando eu tivesse passado a primeira série, ou seja, estivesse na segunda; quando tivesse passado esta, ou seja, na terceira, e assim por diante para investigar esse caso único, que clamava ao céu, e perguntar com eu, o mais incapaz e seja como for o mais ignorante, tinha conseguido chegar sub-repticiamente até aquela série; e uma vez que a atenção geral estava voltada para mim, eles naturalmente me cuspiriam fora sem mais delongas, para júbilo de todos os justos libertados desse pesadelo.
Então é um eterno esperar pela derrota que não chega e ir ultrapassando as provas de que está tudo bem, você consegue, mas nunca confiar de verdade nelas. As constatações de que você sempre conseguiu estão aí, mas nunca são suficientes para atingir os objetivos mais distantes.

Tem esse episódio de Daria onde ela acabou de tirar a carteira de motorista, mas ainda é toda desengonçada. Quem está está dirigindo é a Quinn e a Daria não entende como ela consegue fazer isso sem todo o ritual de ansiedade, frustração e desistência.
Daria: Aren't you terrified?
Quinn: It's all about attitude. You are too timid, Daria. I could do this all day.
E aí eu fico surpresa pela Quinn definir tão bem toda essa injustiça pela qual eu passo. Tudo é fácil, basta atitude, basta não ser muito tímida, basta simplesmente conseguir fazer isso o dia todo. Não tem segredo.

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