sexta-feira, outubro 10

Como ousa


Ontem vi uma guria desfilando com um black tão lindo que fiquei invejando. Só de ver as pessoas tendo orgulho da própria identidade me enche os olhos. Fiquei pensando na menina depois. Esse pensamento se entrelaçou com muitos outros e, ainda que eu não tenha chegado numa conclusão, sempre fico embasbacada como quando você vai reconhecendo os elementos da equação, o resultado vai fazendo cada vez mais sentido.

Apesar de eu endossar completamente o movimento negro e super me interessar por ele, sempre me intrigou o "orgulho" de ser alguma coisa. Eu sei que é questão de empoderamento e reafirmação das origens, coisa que a sociedade suga da gente e daí só fazendo um esforço sem igual para recuperar aos pouquinhos, mas eu pensava além disso. 

Sendo mulher, me declarando feminista, eu me percebi orgulhosa. Os homens não passam pelo que a gente passa. Passar por deslegitimação de todos os tipo desde que você é criança tem consequências. Uma delas é o que a gente conhece, a falta de confiança, o desânimo, a submissão, etc. Daí tudo isso se transforma quando o feminismo surge na vida. Fora a raiva, o nojo, a vontade de dar uns tabefe nos home, a coisa mais importante é a certeza de que a nossa casca engrossou e desculpa, mas a gente vai vencer. E entre um monte de home que chora por pagar mais na balada e um monte de mulher que tá encarando de frente assédio/violência doméstica/abuso psicológico, acho que tá claro quem tá mais preparado.

Porque no fim, entre ter orgulho de ser de uma raça dizimadora, que até hoje é egoísta e se utiliza do racismo institucionalizado para fechar os olhos às minorias e ter origens que têm uma cultura tão diversa, que contesta a norma da sociedade, que há centenas de anos tentam destruir e permanece ressurgindo cada vez mais forte, imagino que sim, deve dar mó orgulho de ter essa história.

sábado, janeiro 4

Quando o óbvio é inútil

Eu fico muito ansiosa. Tendo a achar que não é num nível normal e aceitável de ansiedade, porque realmente me atrapalha. Em primeiro lugar, tenho certeza que engordo (e engordei bastante recentemente) por conta dessa ansiedade. Dessa ansiedade, porque ela é uma entidade que se manifesta diante qualquer oportunidade que apareça na minha vida.  Quando eu perco coisas é certo. Começa uma busca interminável que só cessa quando eu acho a coisa. No fim, se eu não acho, é razão pra sentar e chorar. E ficar dias latejando. Minha mãe não aguentava. Às vezes eu tinha perdido a tal coisa há muito tempo, mas quando me batia, era naquela hora que ela teria que ser encontrada. Aqui em casa é assim também. Geralmente não tem acontecido de eu perder coisas, mas à noite sempre rola de não me aguentar dentro da própria cabeça. 

Quanto às oportunidades, é assim: no momento não tô fazendo nada, tô livre, desimpedida, de férias da faculdade (e a faculdade mesmo não toma um tempo muito massivo). E aí acontecem duas entrevistas de emprego, que saem engatadas na expectativa de espera do resultado do vestibular e entre tudo isso, no fim da linha, vislumbro só uma chance pra fazer o que eu quero - e sempre pareceu impossível - onde eu quero - aí sim estamos falando de dificuldades. Mas peraí. Nada disso se materializou. Eu nem fui às entrevistas ainda, o resultado do vestibular ainda não saiu, essa bolsa de intercâmbio nem tem edital solto, só existe. Mas tudo isso não me impede de estar às 20h de um sábado sofrendo uma ilusão de que tudo caiu no meu colo ao mesmo tempo e eu tenho que escolher - agora, o que é mais absurdo ainda - do que tenho que abrir mão. No fim das contas, nada acontece e eu fico aqui de besta seguindo a vidinha.

Como medidas para essa ansiedade que me aflige e pra desvirtuar a ideia de procurar um médico, e consequentemente tomar remédios, vou fazer uma pesquisa sem compromisso sobre como controlar a ansiedade doentia naturalmente. Minha reação às indicações é que: vou pular da janela antes de conseguir verbalizar a primeira.

  1. Mude sua atitude em relação ao problema.
  2. Respeite suas limitações e, quando for preciso, peça ajuda.
  3. Respire fundo e calmamente.
  4. Mantenha pensamentos positivos.
  5. Valorize e viva o presente. 
  6. Identifique o que causa ansiedade ou tristeza e mantenha-os longe.
  7. Dedique-se a alguma atividade.

terça-feira, dezembro 24

natal, família

Rola um bullying mundial porque eu não passo natal com família ou realmente dou valor à alguma data festiva. É difícil as pessoas enxergarem seu descaso e não te tratarem como insensível, mas também não dá pra falar toda vez "Calma, senta aqui pra te contar porque eu falo assim". Então ficamos assim mesmo. Afinal, não é só natal. Eu volto pra casa umas quatro vezes por ano, enquanto minhas amigas voltam uma vez por mês, no mínimo. 

Minha família já tentou fazer ceia toda reunida, e até teve sucesso enquanto eu e meus primos éramos muito pequenos pra entender alguma coisa. Agora a coisa já desandou de vez. Meus avós já desistiram, o que é até engraçado. Todo aniversário eles falam sobre como "não dá pra reunir todo mundo". Não tem objetivo essa conversa, mas é sempre a mesma, eles analisando tudo o que levou à disfunção familiar.

O legal é que todos devem se sentir como eu e vão dormir cedinho ou ficam assistindo show de fogos na tv. Sabe, acho essa atitude bem razoável, porque no nível que tá seria muito desgaste emocional todo mundo se mobilizar pra ter umas horinhas de amnésia. Minha imagem mental é meia hora antes da ceia, a galera abrindo suas respectivas malinhas de viagem e dando de cara com fotos e notinhas de todas as coisas ruins, tendo um ataque de choro e conversas com fotografias, que no fim vai proporcionar um aparente equilíbrio pra lidar com os parentes.

sábado, fevereiro 23

nailed it

Quando eu me dou conta de que estou em pé, encostada no balcão, esperando o microondas esquentar minha janta, e pintando a unha, entendo porque as pessoas se surpreendem. Tá na cara que eu não levo o menor jeito pra nenhum trabalho manual. Já tentei montar aqueles papertoys e ficou ruim, bem ruim. 
Era pra ser o Haroldo

Nunca tentei desenhar, porque tenho dignidade. E aí que com certa frequência apareço com a unha feita, mesmo que tenha horror à salão. Fica a dúvida: Como eu consegui pintar a unha? Eu pinto a unha deitada enquanto assisto filme, em pé como hoje. Pinto a unha e vou dormir. 


Já não pinto mais a unha do pé, porque nunca ninguém vê meu pé e principalmente porque dá muito trabalho tirar o esmalte. Sobra pouco tempo, entre a internet e meus poucos afazeres, pra eu dar alguma atenção à pintar unha. Mas igual uma criança, eu pinto a unha e passo meia hora no banho tirando o excesso dos lados. Se sai um pouquinho mais, eu não sou de ligar.

Há poucas coisas que eu ache relevantes o suficiente pra exigir perfeição, e pintar a unha definitivamente não é uma delas.




domingo, janeiro 27

O Terror da Faculdade

Bom, todo mundo sabe que ano passado eu me mudei pra Curitiba pra fazer Cinema e ver se dá alguma coisa certo na minha vida. Apesar de eu já ter perdido um ano por causa do técnico que fiz no ensino médio - não sei classificar se foi útil ou não - ainda consegui passar no segundo período de Cinema. Então fiquei um ano sem fazer nada, esperando a faculdade começar e muito preocupada em achar um lugar razoável pra ficar. 

O que mais caracteriza a minha vida é essa sobra de tempo que vira um vácuo, sabe? Perdi 6 meses do começo de 2008 porque entrei no ensino médio na metade daquele ano, daí terminei em 2011 na metade do ano e entrei na faculdade na metade de 2012. Um ano e meio perdidos já. Também não é como se eu já não me torturasse o bastante.

Então para os meus vestibulares consegui tomar todas as escolhas erradas, errar gabaritos, errar uma questão fatídica que mudou toda minha vida acadêmica, me fazer perder todo esse tempo, deixar de passar no curso que eu queria e essas coisas. Tô tentando me curar disso ainda, o problema é a idade. Mas eu passei em Cinema.

Um pouco sobre a Faculdade de Artes do Paraná: O curso de Cinema foi integrado à faculdade e todo mundo tem problemas em aceitar isso, porque o curso recebia no início muitos recursos e hoje em dia esta abandonado. Pra ter uma ideia a faculdade não tem nem lugar pra dar aula pro meu curso. Todos os semestres tem que pegar um ônibus, esperar meia hora até ser entregue num Parque que tem muitos animais, cerca elétrica, uma cidade cenográfica abandonada e muito mato. Eu sinto falta de ter janela na sala. Não é normal passar 4 horas dentro de uma sala sem janela, só com ar condicionado. No meu ensino médio tinha uma janela gigante, onde a gente tava no segundo andar e entrava um sol lindo. A faculdade aparentemente também não tem vínculo algum pra proporcionar estágio pra gente e não dá bolsas, até onde eu sei. Ocasionalmente pode rolar um trabalhinho temporário pra fazer um vídeo institucional, como eu sei que rolou esse ano, mas não tô nem contando com isso. Eu estou agora no segundo período, então não tive acesso algum aos equipamentos da faculdade e até agora 98% das aulas foram teóricas.

Então vocês já conseguiram enxergar meu problema.

Nem teve tanta birra com família como alguns podem imaginar. Qualquer curso que não fosse Engenharia viria com uma enchente de "Mas o que isso faz?". Eles nem fizeram muitas perguntas e acabei arranjando um lugar acima das minhas expectativas até. É suportavelmente perto da faculdade pra ir andando, já que Curitiba tem um clima muito mais ameno que Paranaguá. O bairro que eu atravesso pra chegar na faculdade é bem tranquilo. Dá até prazer de voltar as 19h no friozinho, descendo as ladeiras.

Eu tinha certeza de que ia arranjar um emprego. Me mudei com essa promessa pra minha família. Fica difícil tendo que estar na faculdade às 13:30 e chegando às 19h (lembrem-se que eu tenho a meia horinha dentro do ônibus). Eu não achei que seria tão difícil.

No ano passado eu fiz vestibular e o enem de novo, tentando jornalismo. É difícil você ser boa em algo quando você está acomodada como eu estava. Eu acho que nem torci, achei que ia dar certo como as coisas dão, mesmo que na base do tranco. Se bem que vestibular já é uma porcaria. Fui péssima, nível superação do ridículo. Fui tão mal que num primeiro momento eu não quis contar pra ninguém de vergonha, mas no segundo seguinte não tava nem aí, porque é até difícil de acreditar no meu feito.

Enfim, não sei o que fazer.
E com essa frase eu dou início à minha vida adulta.

quarta-feira, junho 13

Como fazer basicamente tudo

Muita gente convive com a ansiedade, mas o meu passatempo é ficar à espreita no estilo "olha só como vai ser agora que vai começar a minha". E acontece em situações não convencionais, por exemplo, ao sair com os amigos. É sempre uma provação o período que abrange desde quando eu marco a saída até a saída em si. Fico naquela expectativa do que vou falar (pra minha única amiga que conheço há 7 anos), como reagir; e fico colecionando assuntos, lembrando de fofocas, julgando uns atos passados, só para poder comentar tudo naquelas futuras horas em que não estarei mais sozinha. Porque afinal eu estou ali para entreter, não dá para ficar de boca fechada, fazer bico, querer morrer - coisas naturais que imponho a mim mesma apenas para passar o tempo ou para trazer mais um pouquinho de conflito à vida doce que levo.

E essas coisas não deveriam ser coisas naturais? Eu refaço coisas todos os dias, e sempre naquela dúvida se dessa vez eu vou conseguir. Não há self confidence suficiente nesse mundinho que eu chamo de mim mesma. Eu fico esperando o dia em que algo vai me revelar que todos sempre souberam que eu nunca consegui fazer, no fim das contas. Tem essa passagem de Kafka que eu ouso lembrar todo mês.

Eu pensava: nunca vou passar do primeiro ano primário, mas consegui e até recebi um prêmio; certamente porém não vou ser aprovado na admissão ao ginásio, mas fui bem-sucedido; agora entretanto vou sem dúvida fracassar no primeiro ano ginasial; não, não fracassei, e assim continuei sempre em frente. Mas o efeito não foi um incremento de confiança, pelo contrário, sempre estive convencido e tinha a prova formal disso na sua cara de rejeição de que quanto mais êxito tivesse, pior deveria ser o resultado final. Muitas vezes eu via mentalmente a medonha assembleia de professores (o ginásio é apenas o exemplo mais homogêneo, mas por toda parte ao meu redor era parecido), que iria se reunir quando eu tivesse passado a primeira série, ou seja, estivesse na segunda; quando tivesse passado esta, ou seja, na terceira, e assim por diante para investigar esse caso único, que clamava ao céu, e perguntar com eu, o mais incapaz e seja como for o mais ignorante, tinha conseguido chegar sub-repticiamente até aquela série; e uma vez que a atenção geral estava voltada para mim, eles naturalmente me cuspiriam fora sem mais delongas, para júbilo de todos os justos libertados desse pesadelo.
Então é um eterno esperar pela derrota que não chega e ir ultrapassando as provas de que está tudo bem, você consegue, mas nunca confiar de verdade nelas. As constatações de que você sempre conseguiu estão aí, mas nunca são suficientes para atingir os objetivos mais distantes.

Tem esse episódio de Daria onde ela acabou de tirar a carteira de motorista, mas ainda é toda desengonçada. Quem está está dirigindo é a Quinn e a Daria não entende como ela consegue fazer isso sem todo o ritual de ansiedade, frustração e desistência.
Daria: Aren't you terrified?
Quinn: It's all about attitude. You are too timid, Daria. I could do this all day.
E aí eu fico surpresa pela Quinn definir tão bem toda essa injustiça pela qual eu passo. Tudo é fácil, basta atitude, basta não ser muito tímida, basta simplesmente conseguir fazer isso o dia todo. Não tem segredo.

quarta-feira, maio 30

Descarrilho do interesse

Fico me espremendo para ter um mote pro próximo post que nunca vem. Percebi que isso acontece porque não saio de casa, não vejo nada de novo, não converso e/ou aturo praticamente nada, além dos contratempos naturais de alguém que ainda mora com os pais, mas  isso deixa a desejar no grau de interesse, tanto no meu quanto no seu.

O chato mesmo é ter todo esse tempo livre e se dar conta de que você passou 18 anos desenvolvendo a habilidade de saber desperdiçá-lo com maestria, mas ainda assim não ter ninguém pra reclamar com você sobre isso. Vivo me dispondo a fazer coisas, que até faço, mas nunca é com tanto interesse assim. Eventualmente tudo acaba perdendo a graça, mas desconfio dos motivos reais. Talvez eu finalmente me descubra como aquelas pessoas que fazem as coisas mais pelo reconhecimento, ou ainda, sozinha nunca chegaria a lugar nenhum.

O pior mesmo é essa minha mania de até me inserir em alguns grupos, mas naqueles não tão bons ou reconhecidos, porque aí posso passar despercebida, em vez de ser a incompetente. Salvo o trabalho de alguns, quando estou de bom humor, e as pessoas lembram de mim com agrado por algumas duas semanas ao precisar de algum favor, mas logo passa. E quando deveria estar entre os melhores, ainda estou com os desinteressados, só pra não fazer feio no mural de funcionário do mês. Não tem paixão nenhuma nisso, não.